Ir direto para menu de acessibilidade.

Tradução Portal

ptendeites

Opções de acessibilidade

Página inicial > Últimas Notícias > Educação pública como espaço de acolhimento, permanência e construção de futuros
Início do conteúdo da página
Notícias IF Farroupilha

Educação pública como espaço de acolhimento, permanência e construção de futuros

Publicado em Quinta, 22 de Janeiro de 2026, 09h41 | por Secretaria de Comunicação | Voltar à página anterior

No Brasil, viver enquanto pessoa trans ainda significa enfrentar muitas dificuldades no dia a dia. Essas barreiras estão presentes em diferentes áreas da vida, como no trabalho, na saúde e, principalmente, na educação. O preconceito, a evasão escolar e a falta de políticas de acolhimento fizeram, ao longo da história, com que muitas pessoas trans fossem afastadas das escolas e universidades, interrompendo estudos e dificultando a construção de projetos de vida.

visibilidade trans 22012026

Celebrado em 29 de janeiro, o Dia Nacional da Visibilidade Trans marca a luta por direitos, respeito e reconhecimento das pessoas trans na sociedade. Mais do que uma data simbólica, o momento convida à reflexão sobre como o poder público pode garantir acesso, permanência e dignidade. Nesse cenário, a educação pública se destaca como uma das principais ferramentas de transformação social e de promoção da cidadania.

No Instituto Federal Farroupilha (IFFar), as trajetórias de Caroline da Silva, Jazz Ferreira da Rosa Martinez e Fernando Farias da Silva mostram, na prática, como a educação pública, gratuita e de qualidade pode ser um espaço de acolhimento, respeito à identidade e construção de novos caminhos. Mesmo com histórias diferentes, os três estudantes compartilham uma experiência comum: a luta pelo direito de existir, permanecer e aprender em ambientes educacionais.

O Dia Nacional da Visibilidade Trans teve origem em 29 de janeiro de 2004, com o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, no Congresso Nacional, realizada pelo Ministério da Saúde com apoio da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). A iniciativa é considerada o primeiro movimento institucional no país voltado ao enfrentamento da transfobia. Passadas mais de duas décadas, a presença de pessoas trans no debate público aumentou, mas os desafios continuam, especialmente na educação, onde a permanência ainda é um obstáculo para muitos estudantes.

Criado no contexto da política de expansão e interiorização da educação profissional, científica e tecnológica, o IFFar oferece ensino básico integrado ao técnico, cursos de graduação e pós-graduação em diferentes cidades do Rio Grande do Sul. Ao reconhecer a diversidade como um princípio institucional, o IFFar busca garantir que a educação seja um direito acessível a todos. As histórias que seguem mostram como esse compromisso se concretiza no cotidiano da instituição.

Pensando em ampliar a garantia do direito à educação para pessoas que, historicamente, tiveram esse acesso negado, o IFFar aprovou, em 2025, a Cota Trans por meio do seu Programa para Acesso de Estudantes, conforme a Resolução Consup nº 22/2025.

A medida prevê a reserva de vagas para pessoas trans nos cursos Técnico Integrado na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), Técnico Subsequente, Graduação e Pós-graduação. A reserva será ofertada como cota institucional, sem a exigência de vínculo com escola pública, e passará a valer a partir da publicação da Política Institucional de Ações Afirmativas de acesso e permanência qualificada para pessoas trans e de enfrentamento à transfobia no âmbito do IFFar.

Caroline da Silva: permanência, continuidade e reconhecimento
A trajetória de Caroline da Silva no IFFar é marcada pela continuidade dos estudos e pela construção de um vínculo duradouro com a instituição. Seu ingresso no IFFar ocorreu em 2011, no Campus Júlio de Castilhos, e desde então sua história acadêmica se desdobrou em diferentes formações, atravessando mais de uma década de experiências educacionais.

caroline jc visibilidadetrans
Caroline da Silva é egressa do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e atualmente cursa Administração no IFFar – Campus Júlio de Castilhos. Foto: Caroline da Silva/ arquivo pessoal.

O primeiro ingresso foi no curso Técnico em Secretariado. No ano seguinte, Caroline iniciou o curso de Matemática e, em 2013, com a abertura do curso de Ciências Biológicas, participou do processo seletivo e integrou a primeira chamada. Concluiu a graduação em Ciências Biológicas em 2018. Anos depois, retornou à instituição como portadora de diploma, ingressando no curso de Administração, no qual cursa atualmente o quinto semestre.

Durante o período de graduação, Caroline realizou a cirurgia de redesignação sexual em 2015, em Porto Alegre. Segundo ela, até o momento da cirurgia contou com acompanhamento de profissionais por um período mínimo de dois anos, conforme os protocolos então vigentes. À época, o procedimento era realizado exclusivamente na capital, embora atualmente o acompanhamento especializado já esteja disponível também em outras cidades do estado, por meio dos Ambulatórios Trans e de serviços especializados, como os existentes em Santa Maria.

Ao iniciar sua trajetória no IFFar, Caroline tinha como principal expectativa dar continuidade aos estudos e se profissionalizar. “Era continuar meus estudos para adquirir novos conhecimentos e conseguir me profissionalizar para encontrar um emprego e iniciar minha trajetória profissional”, relata. Para a jovem, a educação sempre esteve associada à construção de autonomia e de possibilidades concretas de futuro.

O ambiente do Campus Júlio de Castilhos teve papel decisivo em sua permanência. Caroline relembra que, no primeiro dia de aula, carregava o receio de enfrentar situações de preconceito semelhantes às vividas em outros espaços educacionais. “Lembro que, ao me apresentar, falei quem eu era e que estava em processo para iniciar o tratamento para a cirurgia de resignação sexual. Na época, o processo de retificação de nome era muito mais difícil do que hoje”, conta.

O acolhimento recebido no campus foi fundamental para que pudesse seguir sua trajetória acadêmica com segurança. Segundo Caroline, embora já tivesse clareza sobre sua identidade, o apoio institucional foi determinante para que pudesse avançar em seus objetivos pessoais e profissionais. “Eu já sabia quem eu era e o que eu queria, mas tive total apoio do Campus Júlio de Castilhos, e isso foi fundamental para conseguir seguir em frente e chegar ao meu propósito”, afirma.

Entre as políticas institucionais, Caroline destaca a atuação do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual (Nugedis) como um espaço de promoção do respeito e do diálogo. Para ela, o trabalho desenvolvido contribui para ampliar o conhecimento sobre diversidade e fortalecer ações educativas. “Outras instituições deveriam seguir esse exemplo na prática, não apenas na teoria”, avalia.

Ao refletir sobre o futuro, Caroline se imagina mais realizada tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Para ela, a educação pública representa mais do que formação acadêmica. “É uma possibilidade concreta de acesso, permanência e reconhecimento de existências”, conclui.

Jazz Ferreira da Rosa Martinez: retorno, pertencimento e projeto de docência
A trajetória de Jazz Ferreira da Rosa Martinez no IFFar se confunde com a própria história da instituição no município de São Borja. Seu primeiro ingresso ocorreu em 2011, na primeira turma do Curso Técnico em Eventos integrado ao Ensino Médio, ainda nos primeiros anos de funcionamento do Campus São Borja. “Ao final do Ensino Fundamental, eu tinha certeza de que queria estudar no IFFar”, relembra.

jazz sb visibilidadetrans
Jazz é egressa da primeira turma do curso técnico integrado ao ensino médio de Eventos do IFFar – Campus São Borja e atualmente é graduanda em Licenciatura em Física na instituição. Foto: Jazz Martinez/ arquivo pessoal.

Durante o ensino médio, entre os 14 e 17 anos, as vivências proporcionadas pelo curso técnico contribuíram para o desenvolvimento da sua autonomia, responsabilidade e segurança. “Foi importantíssimo para que eu me desenvolvesse enquanto profissional e enquanto sujeito”, afirma.

Após concluir o ensino médio, Jazz iniciou o curso Física licenciatura em outra instituição de ensino superior, mas não conseguiu concluir o curso. De volta a São Borja, ingressou na graduação em Publicidade e Propaganda, na Unipampa, área na qual também realizou o mestrado em Comunicação e Indústria Criativa. Mas ainda assim, o interesse pela docência em Física permaneceu presente.

Em 2024, ao perceber a possibilidade de retomar esse projeto de vida, Jazz ingressou novamente no IFFar, desta vez para o curso de Física, por meio do processo seletivo via nota do Enem. O retorno trouxe expectativas relacionadas não apenas à formação acadêmica, mas à vivência plena do ensino, da pesquisa e da extensão. “Esperava encontrar aqui espaço para questionar, participar das mais diversas atividades e ter uma experiência completa”, destaca.

No que diz respeito à identidade, Jazz relata que havia receio antes do ingresso, especialmente em razão da ausência de retificação documental e por já possuir uma trajetória anterior no campus antes de se afirmar como pessoa não binária. O acesso facilitado às políticas de nome social e o diálogo respeitoso com docentes e setores administrativos foram apontados como fundamentais para a sensação de acolhimento.

“O fato de encontrar facilmente informações sobre o uso do nome social e ter um processo simples para solicitação fez muita diferença”, explica. Para Jazz, um ambiente educacional acolhedor permite que as educandas e os educandos concentrem energia no aprendizado. “Isso impacta diretamente no nosso processo de afirmação e permanência”, avalia.

Jazz também destaca o papel do Nugedis como espaço de referência e formação, especialmente na perspectiva da formação docente. Ao projetar o futuro, se imagina em sala de aula. “Quero ser uma referência para estudantes que também são diversos e precisam se ver representados”, afirma.

Fernando Farias da Silva: reconstrução, permanência e disputa por espaços
A trajetória de Fernando Farias da Silva no IFFar teve início em 2024, no Curso de Tecnologia em Gestão de Turismo, por meio da chamada por nota do ensino médio. O ingresso ocorreu em um momento pessoal delicado, marcado pela necessidade de priorizar a saúde mental após experiências de evasão no ensino superior motivadas pelo preconceito.

fernando sb visibilidadetrans
Fernando é graduando do curso de Tecnologia em Gestão de Turismo no IFFar – Campus São Borja e foi agraciado com o Troféu Diversidade Trans 2026 – Marcelly Malta. Foto: Fernando Farias/ arquivo pessoal.

Antes de ingressar no IFFar, Fernando havia tentado cursar uma graduação em outra instituição, mas desistiu mais de uma vez. “Eu ainda não tinha a mentalidade que tenho hoje, e o preconceito pesou muito”, relata. Ao iniciar o curso em São Borja, decidiu se dedicar integralmente à formação acadêmica. “Abri mão de muitas coisas para cuidar da minha saúde mental, fiquei um período sem trabalho e passei a me dedicar muito ao curso”, afirma.

No início, Fernando não tinha expectativas ou sonhos definidos. O objetivo principal era aprender. Com o tempo, os planos começaram a se desenhar. “Hoje tenho muitos planos relacionados à minha área. Meu sonho é concluir a formação e retornar ao Instituto como docente”, projeta.

A experiência de acolhimento institucional, no entanto, não foi homogênea. Fernando relata momentos de apoio e respeito, mas também situações de desafio. Ainda assim, avalia que a vivência acadêmica foi fundamental para seu processo de afirmação enquanto homem trans. “O ambiente acadêmico exigiu que eu me posicionasse, me organizasse e me responsabilizasse”, explica.

Entre os apoios institucionais, Fernando destaca a atuação do Nugedis do Campus São Borja como referência. Para ele, políticas institucionalizadas de acolhimento são fundamentais para garantir pertencimento e dignidade. “Esses avanços não são espontâneos. São fruto de muito trabalho contínuo”, afirma.

Ao refletir sobre representatividade, Fernando evita se colocar como referência individual, mas destaca a importância da ocupação dos espaços educacionais por pessoas trans. “Talvez não seja sobre inspirar, mas sobre romper estruturas para que não precisem ser enfrentadas novamente”, pontua.

Atualmente, Fernando é bolsista do Projeto Rede Acesso, Permanência e Êxito (Rede APE), iniciativa desenvolvida no âmbito da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, voltada a enfrentar os desafios relacionados ao acesso, à permanência e ao êxito de estudantes em todas as etapas de ensino. Para o futuro, ele pretende seguir na vida acadêmica e retornar à instituição como forma de compromisso e retribuição à educação pública. “Vejo esse caminho como uma forma de retorno e responsabilidade com tudo o que me foi ofertado”, conclui.

Como reconhecimento por sua trajetória e atuação, Fernando também será agraciado com o Troféu Diversidade Trans 2026 – Marcelly Malta, concedido pela Secretaria de Estado da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos. A premiação será entregue no dia 29 de janeiro, data que marca o Dia Nacional da Visibilidade Trans, durante cerimônia no Teatro Túlio Piva, em Porto Alegre. A homenagem reconhece trajetórias que contribuem para a promoção dos direitos humanos, da diversidade e do enfrentamento às desigualdades, reforçando a importância da presença de pessoas trans nos espaços educacionais, institucionais e públicos.

Ingresso no IFFar – Cursos EJA/EPT
Pessoas que ainda não concluíram o ensino médio e desejam obter uma qualificação profissional podem se inscrever nos cursos da Educação de Jovens e Adultos integrada à Educação Profissional e Tecnológica (EJA/EPT) ofertados pelo IFFar.

As inscrições estão abertas, e a relação de unidades participantes e cursos disponíveis pode ser consultada no site de ingresso do IFFar.

Secom

Fim do conteúdo da página

Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha
Alameda Santiago do Chile, 195 - Nossa Sra. das Dores - CEP 97050-685 - Santa Maria - Rio Grande do Sul. Telefone: (55) 3218-9800